Pedaços inteiros

Sou parte de tudo que me constroi
Partes esparramadas de sentimentos
Sou alimento, garfo, faca e boca
Ouroboros em forma de boi

Sou amor, sem querer, já querendo
Partes rejuntadas de teimosia
Sou o querer ser você, sendo eu
Murmúrios borbulhantes sem vento

Sou tudo que tenho e que tento
Repetição, esforço, reação e contentamento
Sou morrer vivendo no breu
Repetição, esforço, emoção e desvelamento

Sou suspiro ou pura aquarela
A mistura de ser gente e indecente
Sou a dor, sem sentir, já doendo
Anima, alma que esconde e revela

Sou alegria, lágrimas e você
A ilusão que se forma matéria
Sou belo, melódico e triste
Ou só a mistura de ser e não ser

Sou esperança que o fim já existe
Enquanto ainda dentro de um corpo pequeno
Sem contar tantas vezes,
emerjo como quem não resiste

Feliz inconsequente do que fui
Me espreguiço e volto a nascer;.

Alethea, veritas, emunah

Se sabe o cheiro da flor,IMG_6127
O ar da montanha,
O vento no rosto,
O sangue nas veias,
de resto é o nada,
sem gosto,
Nada de ver,
Nada de ouvir,
nada de tentar entender,
nada de ser ou não ser.
pouco real,
muita ignorância, sofrimento e dor.
Tantas línguas e significados
Tantas vezes desacreditada
tantos sonhos, tantas magoas
malfadadas falácias faladas
de uma ventania de vontades;
Digníssima iluminação
Quase nunca alcançada
Desde sempre incompreendida
para sempre procurada;
Viva em conceitos
mas acamada, ou
morta em realidade,
incompleta por natureza
e pela própria capacidade
da humana esperteza
que molda, malda, coça, raspa;
Sem vergonha ou pudor
sem critério ou rigor
mais que torta
e quase oculta
dormente
a verdade é demente
ou inexistente?
sofre, arrasta corrente
morre a mingua
morde a língua
morre no sonho
de quem nunca acordou.

Caminhos II

Caminhos II
Caminhos são longos mesmo
As vezes calmos
As vezes becos
As vezes breves
As vezes sem razão
Aparente
As vezes secos
As vezes dolosos
As vezes leves
As vezes sem nada
Aderente
As vezes duros
As vezes sujos
As vezes neve
As vezes nada
Atraente
As vezes loucos
As vezes roucos
As vezes falha
As vezes vibram
Abruptamente
As vezes vagos
As vezes pagos
As vezes devem
As vezes muito
Abrangentes
As vezes juntos
As vezes junhos
As vezes só
As vezes muito
Avidamente
As vezes descem
As vezes fervem
As vezes sobem
As vezes
Ah, os Caminhos são curtos mesmo
As vezes sempre
As vezes nunca
Assim são os pequenos
Ardis dos caminhos da gente

DESACORTINA

Vejo a luz do sol que nasce fresca na janela
O vento, calminho, sopra a cortina em ondas
Flutua como o pensamento longe dela
Voa solitário buscando nas primeiras luzes
e ainda outra brisa no céu de aquarela

Sonha comigo, me beija, me amassa
O sussurro meigo desse sorriso largo
Olivante olhar curioso que me embaraça
Sacia meu gosto pelo meio amargo
Me apimenta a alma, me deixa sem graça

Ao amante, o amor, paixão, fogo e dor
A saudade, as estrelas, a estrada e poeira ao viajante,
A poesia ou prosa ou cantoria, à sua musa, o trovador
A rimar coração com peito, pele, bochecha ou ventre
Sem importar com a métrica o curioso amador

Morde, roça e arranha a pele castanha
Nos arrepios e dentes e bocas e línguas enfronho
Infinita a brisa, a onda, o sol, a montanha
Vejo que lí, além do sonho, outro sonho
E ainda o respirar da cortina que se assanha.

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Caminhos

Foto 19-10-14 11 12 08

Só mais desta vez
ela mandou em mim
escolhi o futuro
ela mudou meu presente
escolhi ficar
ela me deixou ausente
escolhi amar
ela me deu de repente
um balde d’agua
e um dormente

Não importa o meu traçado
Se em tristeza ou alegria
Menos ainda o meu cajado
Ou o que faço do meu caminho
Ela dita a toda hora
e não pensa como a gente
nem quer atrapalhar a
estória de um ente
Mas leva tudo que passa a sua frente

Eu, você ou qualquer um
só nos basta entender
que a vida é pra viver
não tem momento algum
mesmo querendo ganhar
é a Vida que nos faz caminhar
cheia de si e dona do mundo
mostra pra todos quem manda
se na reta vou dominando
na curva é ela quem ganha

O caminho já esta feito
meus olhos que não vêem
meus pés sentem o chão
só que as vezes já não tem
e voar é necessário
Alguém nos dá a mão
ou cair pra algum lugar
Alguém nos dá um chute
ou saimos do caminho
pra outro caminho navegar

É a vida que me leva
onde leva a natureza
mas também levo ela
pois assim como sou parte
no pouco que me cabe
peso pra um lado e ela sente
que ser humano, inteligente
é viver a vida no presente
e se ela não olha pra gente
eu caminho com ela contente!

– x –

A todos nós que de alguma forma temos que lidar com as surpresas da vida que nos tira o chão, nos tira o céu, nos tira o sono, mas continuamos optando por viver o melhor possível e fazer das nossas experiências verdadeiros ritos de passagem para seres humanos melhores.

Alexandre Bizinoto

Expectativas

Eu imagino
Nós devemos
Você é meu
Eles são outros

Quero um amor pra sempre
Quero um primeiro amor
Quero um doce de queijo
Somente um abraço e um beijo
Quero alguém que me queira
Quero querer um alguém
Quero viver eternamente
E hoje viver com você

Espero que um dia isso mude
Ou Espero nunca mudar
Espero o desejo e a vontade
Flutuando na noite estrelada
Espero o eternamente quente
Espero um colo pra me segurar
Espero o hoje e além, de longe
Eu o hoje no mesmo lugar

Desejo em você o que em mim eu vejo
Desejo você  meu complemento
Desejo seus olhos, boca e corpo
Seu pensamento correndo sem fim
Desejo carnoso, beijando seu corpo
Desejo beijando, seu corpo carnoso
Encruzilhando desejos e expectativas

Quero esperar o desejo completo
Desejo querer esperar o incerto
Espero querer desejar dos dois juntos
E nessa prisão de esperanças futuras
Esquecer o desejo do passado distante
De querer o presente amando e amante.

Lembranças da Turma da Massa

Eu já fui criança e era muito bom. Lá em Uberlândia, que é minha terra natal. Eu tinha amigos, irmãos, sobrinhos, família enfim… tinha esses três aí da foto comigo, a Lilian, o Júnior a Kátia e mais dois que fugiram da foto pois moravam em Belo turminhaHorizonte, a Rê e o Ró. Eram meus companheiros de aventuras. Por muitos anos éramos grudados como um só. Como irmãos que eu considero até hoje e sempre. Todas as brincadeiras, as artes, as tarefas de casa. Ëramos como irmãozinhos, apesar de serem meus sobrinhos e grandes amigos. Eramos uma turminha que não tinha internet, não tinha video-game, nem brinquedos eletrônicos, a TV demorou. Tinha um radinho de pilha. E tinha a Rê e o Ró que moravam longe e tínhamos que nos corresponder por cartas ou telefone aos domingos quando meu irmão, o pai deles, ligava pra falar com a família. Quando chegavam nas férias a festa ainda era maior, noites sem dormir conversando, era muito pouco tempo pra atualizar todo mundo de tudo que acontecia nas nossas vidas. No nosso cotidiano a gente brincava de fazer carros e túneis num amontoado de serragem que o papai usava pro fogão “inovador” dele. Sim, fogão a lenha adaptado para serragem. O meu velho era muito criativo. Serragem que a gente mesmo buscava por uma estradinha que levava a borda da civilização e a uma fábrica de carroceiras a um meio quilometro de casa. Várias viagens com um carrinho de pedreiro pra estocar tudo o que precisava e era todo santo dia. Mas a conseguencia é que tinhamos tudo o que precisávamos. Tampas viravam volante dos carros e latas já usadas a gente esquentava pra tirar o restinho da tinta pra pintar as coisas. tinha madeira que fazíamos pontes e túneis nos montes de serragem e areia. Tambores de óleo viravam grandes rodas pra gente se equilibrar e até lutar espadas de cabo de vassouras, um quintal que se misturava com a rua, criatividade e muita vontade de gastar energia. Todo dia era um dia diferente e maravilhoso. Pique esconde, queimada, buscar pitanga no mato, “tocar” pneu, roubar samambaias no brejo do “Seu” Alexandrino, andar de bicicleta. Até crescermos mais um pouco e fundamos o jornal da família, quem desse pessoal não se lembra de “o Tablóide”a? e anda conseguimos envolver todo mundo pra produzir artigos que vinham de cartas e datilografáramos numa maquina de escrever e depois tirávamos cópia pra mandar por carta pra todos de novo. Todo mundo lia e comentava. Era o nosso facebook da época. Não tinha fim de tanta coisa que tinha pra fazer até a gente crescer. Essa turminha ganhou um nome com o passar do tempo e se auto denominou “A Turminha da Massa”, porque foi quando começou a gíria “massa”, termo impontado de BH pela Rê e pelo Ró, e que a gente não conseguia parar de falar isso. Tudo era muito massa. E ver o Sítio do Pica-pau amarelo era rever a nossa própria realidade de sonhos e aventuras.
As vezes, quando chegamos na idade adulta, sentimos que já vivemos varias vidas e principalmente, quando a gente vê que já tá passando por ela, a nostalgia e a saudade dos tempos inocentes de infância se acentuam. Pra mim, em todas estas diferentes vidas eu tive a mesma infância, com os mesmos amigos/irmãos sobrinhos, essa infância que me construiu, que me protegeu e que me fez a pessoa que me transformei. Porque me veio tudo isso agora? Hoje é o aniversário de um membro ilustre que fez parte dessa turminha. Eu diria a mais participativa e ativista de todos e eu não poderia deixar de registrar com muito carinho essas lembranças e os meus parabéns à Lilian, Deus te acompanha e te protege, como vc cuida e protege quem vc ama. Um beijo no coração com muita saudades das crianças que fomos e das bagunças que fizemos. E orgulho da batalha individual de cada um e dos adultos que se transformaram. 

Com amor

Tio Alex